romà (exercício de processo)

por Samuel Paes de Luna - Ator


Foi barulho. Não, foi batuque. Na verdade, foi uma bateria de escola de samba que sacudiu todos os orgãos, sobretudo o músculo esquerdo-peito que, dessa vez, além de sangue bombeou ondas de afeto, calafrios e euforia. Naqueles corpos: um miúdo e magro e o outro alto e forte. Apertados num elevador. Subindo 17 andares, numa duração que não se conta nos relógios normais. Eram só os dois naquela grande caixa de ferro.


Foi mão. Foi toque. Foi íris. Pupila na pupila. Lá. Bem lá dentro. Mais que dentro. Bem fundo. Profundo nas tripas. Viscerou.


Foi riso. Só riso. Risos. Sorrisos.


Também não foi nada demais. Foi simples. Encontraram-se na subida. A porta quase fechou. Seguraram-na juntos. Mão na mão. Agradecimentos.


Não disseram nada. Quase nada. Mas respiraram o mesmo ar juntos. Daquele cubículo juntos. Escuta mútua. Durante todo o percurso ascensor. Podiam ouvir a saliva sendo engolida. Águas na boca. Suores denunciando o efeito do desejo.


Ninguém jamais diria que um encontro desses pudesse provocar tal experiência naqueles dois.


Chegaram aos seus destinos. Passou tão veloz, mas abriu uma fresta, rasgou um pedaço de buraco e criou espaço pra uma paixão incendiária. Faísca de algo sem nome. Ainda.


Despediram-se. Até logo. Até breve. Boa noite. Caminharam para seus apartamentos como duas tochas ardentes. Febre. Aquecimento. Super acaloramento.


Banhos, jantares, camas particulares e tudo só tinha gosto, som e imagem de elevador em movimento. Cabeça só fabricava e refabricava aquele momento.


Daí em diante, combustível não faltou pra comum, banal mas uma história quente entre duas pessoas igualmente aleatórias e normais.


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